Como ensinar Tática na infância?

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Foto de Kampus Production/Pexels

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A iniciação esportiva é o momento crucial na formação de um atleta, haja vista a demanda crescente na procura por escolinhas desde as menores idades. Logo, é importante refletir como ensinar tática na infância.  

Sabemos que na iniciação esportiva, o ensino deve-se pautar em um processo pedagógico com série de jogos e situações orientadas, onde se desenvolve a motricidade geral, servindo posteriormente como base para as habilidades esportivas específicas. Agora, perguntamos, é possível desenvolver tática na infância?

Em resumo, a lógica interna estrutural dos jogos coletivos conta com seis elementos comuns entre eles, que são: A bola, o espaço, o gol, as regras, colegas e os adversários. E a lógica funcional, caracterizada pelos princípios operacionais, as ações necessárias no ataque e defesa. Nesta última, há uma relação das situações chaves ao objetivo do jogo.

Portanto, sabemos que no ataque é necessário conservar a bola, progredir ao campo adversário e atacar a meta do oponente para se alcançar o objetivo. Em contrapartida, a defesa precisará recuperar a bola, impedir a progressão do adversário para o seu campo, e claro, evitar o gol.   

Seguindo essa premissa, é preciso desenvolver os elementos da tática por meio desta compreensão de estrutura das modalidades coletivas. São alguns dos componentes fundamentais no ensino da tática na infância os conteúdos como:

  • o controle de espaço;
  • a busca de superioridade;
  • informação;
  • ritmo de execução;
  • relação ataque/defesa.

Como abordar esses componentes no trato pedagógico na infância?  

De antemão, o professor precisa ter a consciência de ajustar a seleção de conteúdos ensino-treino para as crianças, adaptando a faixa etária e a compreensão cognitiva das mesmas.

A atividade do pega-pega é uma forma simples que manifesta os componentes de ocupação de espaço, fugida, ritmo de execução – ser mais rápido que o pegador-, entre outros. Uma variedade desta atividade, pode ser proposta em um espaço delimitado na quadra, dividido em três partes iguais. Nesta versão, teremos dois pegadores sem bola no centro e os demais alunos com a bola nos pés estarão dispersos nas outras duas partes. O objetivo é atravessar pelo centro, deslocando-se de um ponto ao outro com bola, fugindo dos pegadores. Os dois alunos do centro sempre permanecerão com coletes na mão, para facilitar a identificação visual de todos os alunos. E no momento em que consegue tocar em alguém, logo entregam o colete para seu colega e ocupam a função de fugitivo na brincadeira.

Certamente ao analisar esta atividade, conseguimos identificar fundamentos técnicos do futsal (Condução e controle de bola), e alguns componentes da ação tática do jogo, tais como: controle de espaço; observar o colega pegador; imprevisibilidade do ambiente. E claro, um pega-pega contextualizado com a estrutura interna das modalidades coletivas, contando com a bola, o espaço (delimitado), colegas, oponentes (pegadores) e regras da própria atividade.

Quais atividades aplicar para ensinar tática na infância?

Agora, veja outro exemplo, com a atividade do Caça ao Tesouro/Pique bandeira. A gestão do jogo discorre da seguinte forma: Em um espaço amplo, divide-se os alunos em duas equipes, com o mesmo número para cada. As duas equipes “esconderão” a bola (tesouro/bandeira) no próprio território. O objetivo é capturar a “bandeira” da equipe adversária e trazê-la pro seu campo. Para se defender, os alunos poderão “pegar” os oponentes que estiverem no seu território e enviá-los à “prisão” até que sejam libertados pelos aliados. A primeira equipe que capturar a bola vence a partida.

Dessa forma, este jogo possibilita a progressão para o campo adversário (Relação ataque-defesa). Além, do ritmo certo para adentrar no espaço do oponente e não ser pego. Bem como, possibilitar a divisão de um grupo para o ataque e o outro da defesa, ou seja, a distribuição da equipe no jogo, entre outros. Dessa maneira, identifica-se alguns dos conteúdos táticos e elementos da lógica interna das modalidades coletivas, ao desenvolver a capacidade de conhecer e reconhecer as situações que a atividade solicita, inclusive identificar a relação com o futsal.

Antes de mais nada, o professor (a) pode incluir fundamentos da modalidade específica na atividade acima. Como por exemplo, conduzir o tesouro (bola) até o seu campo, ao invés de usar apenas as mãos. Variações estas, que acontecem de acordo com a realidade social e cognitiva que a turma se encontra.

Como os jogos situacionais desenvolvem a compreensão tática na infância? 

Em suma, os jogos situacionais são extremamente importantes e contribuem para diversas modalidades coletivas. A metodologia de ensino quanto mais ampla e consistente, maior será o desenvolvimento do aluno (a). A especialização na infância com cargas unilaterais (um só tipo de esporte) pode inibir o desenvolvimento futuro para outras modalidades, pois o maior objetivo nesta fase é possibilitar que as crianças vivenciem de forma rica e variada as experiências em situações táticas.

Logo, a ênfase na diversidade e não apenas na repetição técnica específica, permite que o comportamento adequado para tais situações do jogo seja adquirido. Este comportamento adequado, nada mais é do que uma ação realizada de forma consciente pela criança, de modo que queira alcançar um objetivo.

O que aprendemos sobre ensinar tática na infância?

Portanto, na infância é a fase de desenvolver a aprendizagem para diferentes movimentos, a partir de um contexto situacional voltado para a inteligência motora e cognitiva, estruturas comuns das modalidades esportivas. Como resultado, há um processo de desenvolvimento da capacidade de jogo geral. A aprendizagem vai se moldando a partir das relações sujeito e bola, sujeito e jogo, mediados pelo professor (a). Visto que, na prática o aluno (a) precisa interagir bem com os seus colegas no espaço de jogo de forma inteligente, seja com ou sem bola, e o principal, dar sentido ao que estão fazendo e por quê estão fazendo.

Além disso, o jogo requer situações opositivas, buscando um objetivo em comum. E tem como essência, o controle da ação corporal do outro. Isto é, a tática é um conjunto de ações conscientes do indivíduo, a fim de solucionar os problemas que o contexto de situações de confronto oferece. Quanto mais incentivo e oferta de uma pedagogia contextualizada na infância, maior será o desenvolvimento do atleta.

Em síntese, o tema proposto é desenvolvido nesta fase, por meio de uma metodologia que sustente as intenções técnicas táticas do jogo propriamente dito, seja por meio dos jogos, brincadeiras e na ludicidade inclusive.

Fontes e Referências

A atividade pedagógica da Educação Física.

Pedagogia do Futsal: Jogar para aprender (Wilton Santana).

O Ensino do Desportos Coletivos (Claude Bayer). 

Confira um episódio do Podcast Ciência da Bola que fala sobre o assunto:

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João Bonfatti

João Bonfatti atualmente trabalha como Coordenador do setor de Análise de Desempenho no América-MG. Antes disso, teve passagens pelo Vasco da Gama, onde atuou em diferentes categorias: foi auxiliar técnico do Sub-20, treinador interino do Sub-17 e auxiliar técnico do Sub-17.

Atuou também pelo Atlético-MG, onde desempenhou o papel de auxiliar técnico do Sub-15. No Corinthians, auxiliar técnico do Sub-14, além de exercer a função de supervisor metodológico.

Sua formação inclui o Bacharelado em Futebol pela Universidade Federal de Viçosa e a Licença B da CBF Academy, o que reforça sua base teórica e prática no desenvolvimento de atletas.

Felipe Bonholi

Felipe Bonholi integra a equipe do Palmeiras como Analista de Desempenho no Centro de Formação de Atletas (CFA), contribuindo para o desenvolvimento e acompanhamento de jovens talentos.

Antes disso, acumulou cinco anos de experiência na Ferroviária, onde atuou como Analista de Desempenho da equipe profissional, e no São Carlos Futebol Clube na mesma função.

Sua formação acadêmica inclui Bacharelado em Administração de Empresas pela UNIARA (2014–2017) e graduação em andamento em Educação Física pela mesma instituição, iniciada em 2019.

Com sólida base teórica e ampla experiência prática, Felipe Bonholi se destaca por sua capacidade de integrar análise técnica, gestão e visão estratégica no contexto esportivo, contribuindo para o desempenho e evolução de atletas e equipes.

Mylena Baransk

Mylena Baransk é doutora em Educação Física pela Universidade Federal do Paraná e mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, onde também concluiu sua graduação em Educação Física – Bacharelado. Especialista em futsal com foco em análise de desempenho, atuou como docente em cursos do ensino superior e analista de desempenho no futebol.

Atualmente, exerce a função de analista de desempenho no Clube Atlético Mineiro, onde trabalha desde agosto de 2024. Antes disso, desempenhou a mesma função na Associação Ferroviária de Esportes entre março e agosto de 2024, atuando em Araraquara, São Paulo.

Além da atuação em clubes, possui experiência acadêmica como docente, tendo lecionado na UniCesumar entre julho e outubro de 2023, em Curitiba, Paraná. Também foi professora na UNIFATEB, onde atuou por quase três anos, de fevereiro de 2021 a outubro de 2023, em Telêmaco Borba, Paraná.

Com forte presença na área de análise de desempenho no futebol, também é CEO da Statisticsfut, onde se dedica ao desenvolvimento de conteúdos e estratégias voltadas à análise estatística e desempenho esportivo.

Nathália Arnosti

Nathália Arnosti é uma profissional de destaque na área de Fisiologia do Esporte e Preparação Física, com sólida formação acadêmica e ampla experiência no futebol brasileiro.

Bacharel e mestre em Educação Física pela Universidade Metodista de Piracicaba e doutora pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ela construiu uma carreira marcada pela integração entre ciência e prática esportiva.

No cenário dos clubes, já contribuiu com equipes como Athletico Paranaense, Red Bull Bragantino, Palmeiras, Audax, Ferroviária e Ponte Preta. Em janeiro de 2024, assumiu o cargo de fisiologista do Cruzeiro, reforçando seu papel como referência no acompanhamento e otimização do desempenho esportivo.

Rodrigo Aquino

Rodrigo Aquino é professor na Universidade Federal do Espírito Santo, onde atua no Departamento de Desportos e como docente do Programa de Pós-Graduação em Educação Física (Mestrado e Doutorado).

É líder do Grupo de Estudos Pesquisa em Ciências no Futebol (GECIF/UFES) e coordenador do Programa Academia e Futebol (Núcleo UFES), financiado pelo Ministério do Esporte. Seu trabalho envolve a coordenação de projetos técnico-científicos em parceria com categorias de base e equipes profissionais de futebol no Brasil.

Rodrigo é graduado em Educação Física e Esporte pela USP, com especialização em Ciências do Desporto pela Universidade do Porto. Concluiu o mestrado e doutorado em Ciências também pela USP. Acumula experiência prática no futebol desde 2015 como fisiologista e preparador físico em clubes profissionais, além de atuar como treinador e coordenador técnico em categorias de base. Reconhecido academicamente, está entre os 10 cientistas do esporte mais produtivos da América Latina em publicações científicas relacionadas ao futebol.

Neto Pereira

Neto Pereira é um profissional de preparação física e performance esportiva com experiência em clubes do Brasil e do exterior. Atualmente é Preparador Físico no sub-20 do Vasco da Gama.

Trabalhou como Head Performance and Fitness Coach no FC Semey do Cazaquistão (2024). Foi Preparador Físico no Confiança (2023-2024) e Head of Performance and Health no Avaí (2022-2023). Também exerceu o cargo de Coordenador de Performance no Confiança (2022) e trabalhou como Fisiologista no CRB (2021-2022) e no próprio Confiança (2019-2021).

Possui Mestrado em Saúde e Educação Física pela Universidade Federal de Sergipe e Especialização em Desempenho Humano pela Universidade Tiradentes (Unit). Suas principais competências incluem preparação física, análise de desempenho, força, potência e velocidade no esporte.

Rafael Grazioli

Rafael Grazioli, natural de Canoas (RS), é formado em Educação Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também concluiu mestrado e doutorado em Ciências do Movimento Humano.

Com nove anos de experiência atuando como coordenador científico e fisiologista no futebol profissional, ele passou as últimas três temporadas no Guarani de Campinas (SP) antes de ser anunciado pelo Criciúma em janeiro de 2025.