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Lesões musculares no futebol – Parte I

Por: Ricardo Neves de Sá

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No texto anterior sobre Quais as Principais Lesões no Futebol?, vimos que uma alta porcentagem das lesões que ocorrem no futebol são as musculares. Nesse sentido, Ueblacker et al. (2016) afirmam que esse tipo de lesão é frequente e representa um dos problemas médicos mais importantes no futebol de nível profissional.

Desse modo, percebendo a importância do tema em questão, discutiremos esse assunto em duas partes. Em primeiro lugar, na Parte I veremos de forma detalhada a epidemiologia das lesões musculares, sua patologia, sua classificação, os fatores de risco e os mecanismos de lesão. Posteriormente, a Parte II será inteiramente dedicada as suas principais formas de prevenção.

Epidemiologia das lesões musculares no futebol

No futebol masculino de nível profissional, as lesões musculares são um dos maiores problemas enfrentados pelos jogadores, representando de 20% a 37% de todo o tempo ausente, ou seja, fora dos campos.

Assim, Ekstrand et al (2011) destacam que das 2908 lesões musculares prospectadas durante os anos de 2001 a 2009 no estudo proposto, 53% ocorreram durante jogos e 47% durante treinos. Além disso, essas lesões corresponderam a 31% de todas as lesões verificadas ao longo do estudo, sendo que 92% delas afetaram os 4 principais grupos musculares das extremidades inferiores, que são, por ordem: Isquiotibiais (37%), adutores (23%), quadríceps (19%) e panturrilha (13%).

A seguir, apresentaremos uma tabela resumindo algumas informações relevantes do estudo:

Tabela 1. Dados epidemiológicos relevantes sobre lesões musculares, adaptado Ekstrand et al (2011).

Patologia da lesão muscular no futebol

Primeiramente, é importante saber que a lesão muscular, geralmente, está associada a uma contusão, distensão ou laceração, sendo esta última a mais incomum entre as 3 possíveis causas. Mas, independentemente da causa da lesão, a cicatrização do músculo esquelético segue uma espécie de padrão, onde 3 fases principais podem ser identificadas:

  1. Fase de Destruição;
  2. Fase de Regeneração;
  3. Fase de Remodelação. (ver Figura 1).
Figura 1. Representação esquemática do processo de cura músculo esquelética, adaptado Järvinen et al. (2005)

Dessa forma, verifica-se que a Fase de Destruição (Fase 1) está composta por 3 momentos que são: ruptura muscular, necrose das miofibras e a inflamação. No entanto, essa mesma distinção de momentos não vemos na Fase de Regeneração (Fase 2) e Fase de Remodelação (Fase 3). Isso ocorre porque são processos concomitantes, ou seja, a regeneração das miofibras e a formação da cicatriz ocorrem simultaneamente. Portanto, a progressão equilibrada de ambos os processos é fundamental para a recuperação correta da função contrátil do músculo.

Classificação das lesões

Existem diferentes formas para classificar as lesões musculares. Barroso & Thiele (2010), citam em seu estudo uma classificação quanto à gravidade da lesão, dividida em 3 tipos, que são:

  1. Tipo I (estiramento) – Causada por alongamento excessivo do músculo. Afeta menos que 5% das fibras; pequena hemorragia ou nenhuma e sem perda de função. Causa dor à contração e ao alongamento passivo, além de apresentar edema pequeno e danos mínimos ao tecido.
  2. Tipo II (ruptura parcial) – Causada, na maioria das vezes, por uma contração máxima. Afeta entre 5% e 50% do músculo; apresenta edema, dor que piora contra a resistência, hemorragia moderada e função limitada pela dor.
  3. Tipo III (ruptura total) – Ruptura completa das fibras musculares com presença de defeito visível ou palpável; grande edema e hemorragia com perda completa da função.

Järvinen et al. (2014) citam em seu estudo uma classificação com outra terminologia, mas com semelhante significado. Para esses autores, a classificação é dividida em 3 fases, que são: leve (grau I), moderada (grau II) e severa (grau III).

Por outro lado, os autores Chan et al (2012) propuseram uma nova forma de classificação das lesões musculares, que considera as características de imagem (com base em ressonância magnética e ultrassonografia) das lesões musculares (tabela 2).

Tabela 2. Novo sistema de classificação proposto, adaptado Chan et al. (2012) / JMT – Junção Miotendínea

Portanto, cabe à cada clube, junto ao seu corpo médico, decidir qual a melhor forma de classificação das lesões musculares para a sua realidade.

Fatores de Risco e Mecanismos de Lesão

Existem diversos fatores de risco que influenciam para a ocorrência de uma lesão e, geralmente, são divididos em intrínsecos (relacionados ao jogador) ou extrínsecos (relacionados ao meio). Além disso, esses fatores podem ser categorizados em não-modificáveis e modificáveis (Tabela 3).

Tabela 3. Exemplos de fatores de risco intrínsecos/extrínsecos, não-modificáveis e modificáveis, adaptado Barça Guideline (2018)

Entretanto, quando falamos em mecanismos de lesão, podemos dizer que, geralmente, as lesões musculares ocorrem na fase excêntrica do movimento (Mendiguchia et al 2013) e, dependendo do músculo em que ocorra a mesma, poderá manifestar-se durante um sprint, aceleração, desaceleração, chute, salto, etc.

Para resumir, entendemos que a lesão muscular ocorre da interação de diversos fatores, sendo a sua etiologia complexa, dinâmica, multifatorial e dependente do contexto (Figura 2).

Figura 3. Rede de determinantes da lesão muscular no futebol, fonte Barça Guideline (2018)

De acordo com o material proposto pelo FC Barcelona (2018), os fatores associados as lesões formam uma teia de fatores determinantes e, certas associações entre essas causas, serão regularidades que contribuem para um padrão emergente, neste caso, a lesão muscular (Figura 3).

Figura 3. Rede de determinantes da lesão muscular no futebol, fonte Barça Guideline (2018)

Lesões musculares no futebol

Portanto, vimos que a lesão muscular é uma das “dores de cabeça” dos jogadores, sendo responsável por cerca de 1/3 do período que estes permanecem fora de treinos e jogos ao longo de uma temporada. Vimos também que existem diferentes formas para classificá-las, mas sua recuperação segue sempre um mesmo padrão, diferentemente da sua origem, que como vimos, é multifatorial estando associada com fatores intrínsecos e extrínsecos, modificáveis ou não.

Assim, ao longo desse texto sobre as Lesões Musculares no Futebol – Parte I, foi possível situar você leitor, de forma resumida, sobre os principais pontos que circundam as lesões musculares. Com isso, deixamos aqui o convite para que você acompanhe a nossa publicação sobre Lesões Musculares no Futebol – Parte II, onde falaremos sobre o processo de prevenção e reabilitação dessas lesões.


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Contato do autor:
Instagram @pf_ricardosa
E-mail: ricardosa2506@gmail.com

Imagem de Capa
Fonte: purebreak.com

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