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Como fazer o controle de carga no futebol?

Por: Diego Augusto

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O futebol é um esporte sistêmico que envolve demandas físicas, técnicas, táticas e psicológicas. E, para que haja otimização do desempenho nessas demandas durante as competições, os jogadores devem estar sempre aptos a realizar as exigências impostas pelo jogo. Por isso, nos últimos anos, o grande desafio de treinadores e profissionais do esporte é desenvolver estratégias de controle da carga de treinamento, com o intuito de gerar adaptações positivas e de potencializar o status de prontidão durante as competições, ao longo de temporada competitiva.

Nesse sentido, durante as temporadas competitivas, é através do processo sistematizado de treinamento que se torna possível desenvolver alterações funcionais e estruturais nos atletas de futebol. As adaptações positivas são consequência do equilíbrio entre estímulo e recuperação. Somado a isso, para que haja otimização da performance durante a temporada competitiva, é necessário o controle das cargas prescritas, pois os estímulos não devem ser demasiadamente intensos, ultrapassando os limites dos atletas. Por outro lado, não devem ser baixos, causando destreinamento.

Afinal, o que é carga de treinamento e como realizar o controle?

Primeiramente, no processo de planejamento do treino no futebol é necessário o conhecimento de alguns conceitos importantes que são inerentes ao treinamento desportivo, são eles:

  • Carga de treinamento: resultado da relação da quantidade de trabalho (volume), somado aos aspectos qualitativos (intensidade);
  • Sobrecarga: princípio do treinamento desportivo que significa realizar estímulos para a quebra da homeostase no organismo do atleta;
  • Overtraining: perda prolongada do desempenho esportivo, funcional e psicológico;
  • Overreaching não funcional: processo semelhante ao overtraining quanto aos sintomas, porém com menor duração.
  • Overreaching funcional: processo programado de intensificação do treinamento buscando uma diminuição temporária e reversível do desempenho.

Resumidamente, esses conceitos citados estão inseridos na rotina dos profissionais do esporte.Assim, estes profissionais possuem a função de programar as sobrecargas de forma controlada para evitar o processo de Overtraining e Overreaching não funcional. Além disso, para que haja maior precisão no controle do treino, algumas etapas devem estar inseridas nas rotinas dos profissionais

Dessa forma, podemos utilizar as seguintes etapas para realizar o controle das cargas estabelecidas do treinamento, como:

  • Monitoramento: observar as respostas dos atletas as cargas de treino que foram planejadas pelo treinador;
  • Quantificação: o somatório dos registros das cargas de treinamento planejadas e executada pelos atletas;
  • Regulação: os ajustes realizados conforme as circunstâncias e respostas apresentadas pelos atletas.

Além das etapas citadas, há mais formas de gerenciar a carga de treino. Uma estratégia muito utilizada, auxiliando os profissionais no entendimento de distribuição das cargas, é a observação de como os estímulos propostos e recebidos evoluem ao longo do tempo. Este processo tem sido realizado pela razão entre as cargas crônicas e agudas.

Razão agudo:crônica, o que é?

Alguns profissionais do esporte utilizam constantemente o conceito de razão agudo:crônica. Em outras palavras, é a relação entre as cargas de treino crônicas (semanas anteriores) e cargas de treino agudas (semana atual). Isto é, esse é um indicador que norteia o conceito de sobrecarga progressiva. Veja o gráfico abaixo para entendermos melhor a distribuição da carga semanal.

Fonte: criado pelo autor

Ao observar o gráfico podemos notar que não existe diferenças acentuadas entre as cargas da semana, se comparada a semana seguinte e a semana anterior. Ou seja, este equilíbrio é imprescindível para manter o nível de performance dos atletas.

Ainda nesse sentido, para entender melhor essa relação entre as cargas, os pesquisadores das ciências do esporte centraram esforços nos últimos anos para entender a dependência entre cargas aguda e crônica. O objetivo é auxiliar os treinadores com informações que pudessem aumentar o estado de performance dos atletas e diminuir os riscos de lesão.

Alguns autores da literatura científica como Tim Gabbet, Aaron Couts e Matthew Varley indicam que há momentos na temporada que os atletas podem estar com maior suscetibilidade para sofrer uma lesão. Esses períodos são conhecidos como zona de risco e requerem elevada atenção dos treinadores. Por outro lado, já se sabe que as previsões utilizando um alto índice da razão nem sempre indicam para maior risco de lesão. Portanto, é necessário cuidado ao interpretar os dados.

Na imagem abaixo podemos observar um gráfico de dispersão, no qual a zona vermelha, “Danger Zone”, ilustra momentos em que o atleta apresenta maiores valores de razão agudo:crônica. Em contrapartida, níveis ótimos de carga aguda:crônica indicam um estado de performance ideal, “Sweet Spot”, ilustrado pela parte verde no gráfico.

Fonte: M McGuigan (2017)

Por que realizar o controle de carga no futebol?

Portanto, o objetivo principal do processo de controle de carga no futebol está em expor os atletas a cargas de treino que possam aumentar seu estado de fitness. Além disso, reduzir as chances de sofrer com a fadiga excessiva, no qual poderia acarretar numa lesão. Desse modo, os dados vão auxiliar os treinadores no gerenciamento das cargas durante a temporada competitiva.

Assim, para que o processo de controle de cargas no futebol obtenha resultados satisfatórios, é necessária uma abordagem holística, envolvendo no processo os atletas, treinadores, departamento médico, entre outros. No entanto, para que se tenha êxito no controle de carga no futebol é importante entender o contexto e as circunstâncias na qual o clube, profissionais e jogadores estão inseridos.


Contato do Autor:
E-mail: diegoaugustoufs@gmail.com
Instagram: @augustsdiego

Referências:

BLANCH, Peter; GABBETT, Tim J. Has the athlete trained enough to return to play safely? The acute: chronic workload ratio permits clinicians to quantify a player’s risk of subsequent injury. British journal of sports medicine, v. 50, n. 8, p. 471-475, 2016.

BOURDON, Pitre C. et al. Monitoring athlete training loads: consensus statement. International journal of sports physiology and performance, v. 12, n. s2, p. S2-161-S2-170, 2017.

NAKAMURA, Fabio Yuzo; MOREIRA, Alexandre; AOKI, Marcelo Saldanha. Monitoramento da carga de treinamento: a percepção subjetiva do esforço da sessão é um método confiável. Journal of physical education, v. 21, n. 1, p. 1-11, 2010.

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