“Futebol” no tempo do “não futebol”


Por Mateus Caburé

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Antes de iniciar a coluna, quero ressaltar o não ineditismo desse texto, uma vez que, em partes, a sua ideia foi apresentada e debatida no Programa Óbvio Ululante, da rádio UFMG Educativa, na quarta-feira, 22 de abril. O pensamento de trazê-lo para cá, veio da sensação do não esgotamento do debate, requerendo umas reflexões a mais. Então, retornemos ao debate…

Ainda sem futebol

Continuamos sem futebol, porém, devemos seguir o jogo. Assim também pensam a mídia especializada no assunto: se não tem jogo ao vivo, vamos de reprise, relembrando os bons momentos da Seleção Brasileira, grandes jogos envolvendo clubes e finais memoráveis, seja ela em âmbito estadual ou mundial; se não temos jogos, não temos mesas redondas para discutir a rodada, temos lives de mesas redondas, comentando jogos antigos reprisados e os feitos e carreiras de jogadores do passado ou atuais.

Nesse mundo sem futebol, as comparações entre times, entre jogadores, intensificaram. Ali vemos atletas dos tempos atuais, comparados com jogadores de três décadas atrás. Quem foi melhor, Carlos Alberto Torres ou Daniel Alves? Em outras palavras, seria como perguntar qual carro é melhor, o Fusca 73 ou um Fiat Uno 2020? Caímos assim em um dilema, caros amigos.

O hoje ícone saudosista Fusca, “com sua rodinha no nazismo”, já foi o carro da moda, feito para o povo, como diz a tradução do seu germânico nome, suprassumo de modernidade e utilidade. Já o Uno, o primeiro carro de muitos, inclusive desse emulador de cronista que aqui vos fala, também teve as suas glórias, mesmo que na versão atual não tenha um preço tão popular, ocupou por um bom tempo esse posto, era o carro para passeio, família e trabalho. Recorrendo a uma comparação direta, provavelmente o Fusca sairia perdendo em vários quesitos, como eficiência, conforto, economia e por aí vai, mas, ao mesmo tempo, não apaga o seu destaque e a sua importância, são tempos diferentes cada um se beneficiou ao máximo do que tinha disponível, principalmente ao que se refere à tecnologia.

Transpondo a discussão novamente para o futebol, ao seu tempo, Carlos Alberto foi o melhor de sua posição, capitão da Seleção Brasileira e campeão da Copa de 1970. Por outro lado, Daniel Alves, o jogador com mais títulos atualmente, jogou o fino da bola e reinou na sua posição, em clubes de primeira linha mundial e também no time nacional. Ambos foram destaques, e assim como os carros citados, tiveram seu protagonismo, cada um numa era diferente, não tem como decidir quem foi o melhor. Carlos Alberto, o Capita do tri, teve seu auge na era da introdução formal da preparação física no futebol, marcada ainda por métodos questionáveis que foram aprimorados com o tempo. É da era em que a AIDS não era uma preocupação, logo não era problema utilizar a mesma seringa em toda a equipa para aplicar glicose e vitaminas para amenizar o desgaste dos treinamentos, ou mesmo consumir uma laranja antes do jogo para dar aquela energia. Por mais fundamento que tenha essas e outras práticas da época, a preparação caminhava muito mais pelo incerto do que pelo certo e tudo foi evoluindo.

O futebol mudou?

Ainda que existam pessoas e jogadores que acreditam em tratamento com placenta de égua no sudeste asiático ou que contratam serviços de pai de santo para salvar do rebaixamento, a tecnologia aplicada ao futebol está em outro estágio. É nesse momento que joga Daniel Alves, ainda existe a preparação física, porém, com 50 anos a mais de discussões, a reposição dos nutrientes para combater o desgaste físico e alimentação pré-jogo, também continuam em voga, com esse acréscimo temporal de estudos, experimentação e melhorias. Incomparavelmente o jogador se conhece mais, o conhecem mais e também em relação aos adversários, todos os atalhos possíveis são utilizados em busca de uma melhor performance (muito disso pode ser visto aqui no https://www.cienciadabola.com.br/).

Essas comparações muitas vezes apelam a critérios numéricos-percentuais e passionais, nelas pesam aquele gol na final contra a Itália e o troféu levantado ou aquele outro, de falta, contra a guerreira África do Sul de Joel Santana, mas, no meu entender, se analisadas a fundo, essas comparações são impossíveis de acontecer nessas circunstâncias, o mais coerente seria comparar Carlos Alberto com Nelinho e Daniel Alves com Maicon, correspondentes em função e contemporâneos no futebol.

Poderia discorrer mais sobre isso, e acho que deveria, porém, se faz necessário seguir para a outra temática presente, não menos importante, as enquetes dos melhores times do Século XXI. Nelas, tem uma lista de jogadores e você deve escolher qual a formação ideal. Essas enquetes trazem duas características curiosas: a primeira é a composição da maioria dos jogadores disponíveis para escolha, geralmente dominada por jogadores atuais, como se os jogadores de outros tempos ficassem ofuscados pelo o que acontece agora, com exceções de elencos campeões que marcaram época, Cruzeiro de 2003, Atlético de 2013; a segunda característica é marcada supremacia de jogadores de ataque e armadores nas opções oferecidas para a seleção do time específico.

A segunda característica mais atenção, mostra a nossa memória curta, só lembramos de quem faz gols, de quem define o resultado ou fez uma firula que marcou, mesmo não resultando em nada para o time. Por mais que o resultado seja o que marca, ele é construído não só pelo gol feito, mas também pelos gols evitados e controle do jogo via marcação e posse de bola, seja pelo bom trabalho do sistema de defesa ou por competência e milagres de um goleiro.

Os volantes são os mais sacrificados nesse momento, a exemplo, Mauro Silva e Dunga na Copa de 1994, destruíam as jogadas adversárias e iniciavam os ataques do Brasil, ou um caso mais modesto, Augusto Recife em 2003, que garantiu a “tranquilidade” da máquina de títulos que foi o Cruzeiro naquele ano, anulando as principais ameaças adversárias (Araújo, Diego, Kaká e por aí vai), atualmente, posso estar sendo leviano, mas a maioria dos torcedores celestes nem sequer lembrará da sua passagem como jogador da equipe, quem dirá a sua importância. Dunga é mais lembrado por sua garra, que pode ser traduzida por gritos e broncas dirigidos aos colegas de time, do que pelas roubadas de bola sucedidas por contra-ataques iniciados. Os turcos correndo atrás de Denílson é um fato mais lembrado pela mídia, em termos de Copa do Mundo, do que toda a eficiência do camisa 5 do tetra.

Como dito por Casagrande no memorável 4 a 1 do Brasil sobre a Argentina, em 2005: Hoje o Brasil deu um show, Cicinho brilhou, Adriano, Ronaldinho e Kaká, também brilharam. Mas um jogador, em especial, também brilhou, foi o melhor da competição, Zé Roberto, silencioso, tomou conta do meio campo, garantiu toda essa mágica. Quantos torcedores lembram que Zé Roberto esteve na Seleção e do seu protagonismo nela?


Mateus CaburéLicenciado em Educação Física pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e membro do Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (GEFuT). 

Contato: mateusalsilva@yahoo.com.br

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