A fisiologia aplicada ao futebol


Por Reginaldo Amstalden Junior

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A fisiologia aplicada ao futebol tem se mostrado uma grande aliada das comissões técnicas no tocante a preparação de performance atlética de seus atletas. Dessa forma, com a aproximação entre futebol e ciência, ela vem ganhando espaço e gerando importantes debates.  A palavra fisiologia vem do grego physis (função, natureza) e logia (estudo). Assim sendo, subentende-se que a fisiologia se encarrega de investigar o funcionamento do organismo do atleta. Com esse simples conceito fresco em nossa mente, conseguimos começar a entender o papel desse ramo dentro do futebol.

Bases fisiológicas do jogador de futebol

A princípio, é necessário conhecer como funciona o organismo do atleta durante um jogo ou treino. Os conceitos como: a via energética predominante, as ações musculares, capacidades físicas necessárias, ações durante o jogo (em volume e intensidade) e respostas fisiológicas e bioquímicas especificas, são essenciais para o trabalho do departamento de fisiologia.

O papel do fisiologista

Visando o rendimento e a saúde do atleta, são quatro as principais funções de um fisiologista dentro de uma comissão técnica:

  • avaliar,
  • monitorar,
  • analisar,
  • e controlar.

Isto é, avaliar a condição física/fisiológica em que o atleta se encontra para que a comissão possa traçar um plano de treinamento para o mesmo. Depois, monitorar para analisar como anda o seu desenvolvimento dentro do que lhe foi planejado ou como se encontra sua recuperação entre sessões/jogos. E por fim, de acordo com os itens anteriores, controlar as imposições das cargas de treino sobre esse atleta.

Bem como, as análises fornecidas pelo departamento de fisiologia são de grande valia para todos os membros da comissão técnica. Com elas, conseguimos ser mais assertivos na busca pelo alto desempenho do atleta e da equipe em geral. O treinador, por exemplo, tem conhecimento do atleta que se encontra mais desgastado para determinada partida e o preparador físico consegue melhor ajustar a carga de treino para cada atleta dentro da periodização. Daí a importância do trabalho sistêmico.

Tão importante quanto às informações coletadas, é a forma com que elas são expostas perante a comissão. Nesse sentido, fornecer dados é a função básica do fisiologista. Enquanto que discutí-los, junto a informações de outros departamentos (médico, nutricional, fisioterápico) e chegar a decisões lúcidas em prol da equipe é papel da comissão como um todo. Como relata Emerson Silami, em vídeo gravado pela CBF TV a respeito do departamento de fisiologia da seleção Brasileira na copa de 2014.

O conceito de cargas de treino

Cargas de treino podem ser consideradas como qualquer trabalho fisiológico realizado pelo atleta em um jogo ou treino, bem como seu impacto no organismo dos mesmos. Podemos subdividi-la em carga externa e carga interna. Entende-se como carga interna o stress fisiológico (e psicológico) causado em resposta ao jogo ou ao treino. Já a carga externa abrange as variáveis manipuláveis, ou seja, as ações realizadas pelos atletas durante um jogo ou treino.

Além disso, a tarefa de avaliar, monitorar, analisar e controlar passa diretamente pelo conceito aqui descrito. Da mesma forma, para encontrar a carga de treino ideal, são necessárias avaliações prévias, afim de acompanhar as respostas das cargas necessitamos de monitoramento e análise. E para fazer possíveis ajustes nas cargas, controlamos. Sob o mesmo ponto de vista, diferentes cargas podem apresentar diferentes respostas em diferentes atletas, com isso, o monitoramento é primordial.

Submeter atletas a cargas inapropriadas pode levar a diminuição do desempenho bem como aumentar o risco de lesões. As últimas pesquisas sobre o tema nos trazem a ideia de que cargas indevidamente aumentadas ou diminuídas acrescem o risco de lesão. Determinar zonas de treinamento e variá-las têm se mostrado a maneira mais benéfica para se trabalhar.

Meios e métodos

Para tais objetivos, a fisiologia aplicada ao futebol detém uma gama de meios e métodos que lhe fornecem as informações desejadas. Nas avaliações físicas, são muitos os procedimentos existentes. Valências como força, potência, velocidade, agilidade, capacidade aeróbia (VO2) e anaeróbia, limiar anaeróbio e composição corporal se mostram importantes a serem avaliadas para a prescrição do treino.

Além disso, alguns caminhos têm se mostrado relevantes quando nos referimos a monitoramento das cargas de treino. Como questionários de bem estar (scores referentes ao sono, stress, disposição, dor e recuperação entre sessões de treino). Percepção Subjetiva de Esforço (scores a respeito da intensidade e desgaste do treino/jogo). GPS (ferramenta que nos dá a distancia total percorrida, a distância percorrida em velocidades diferentes, número de acelerações e desacelerações…). TRIMP (Frequência Cardíaca e seus limiares em diferentes intensidades de jogo/treino), análises bioquímicas (CK e lactato), e análise termográficas (temperatura corporal).

Portanto, essas ferramentas encontram informações como a monotonia e o strain. Estes são indicadores de variabilidade e stress fisiológicos, respectivamente. Ambos avaliam a qualidade da semana de treino e quão produtiva ou desgastante ela foi para o atleta.

A partir do monitoramento, encontramos unidades de carga aguda (carga da presente semana) e também de carga crônica (acumulo/média das cargas agudas) do atleta. Essa teoria é estudada a fundo por um pesquisador australiano chamado Tim Gabbett. Ele reportou algumas formas de relacionar a carga aguda com a carga crônica a fim de melhor condicionarmos o atleta e deixa-lo livre de lesões.

Tecnologia

A tecnologia vem se mostrando muito útil para auxiliar na busca dos dados. Existem no mercado ferramentas altamente modernas para avaliação e monitoramento, tendo em vista os meios já citados. Contudo, são minoria as equipes que contam com tais suportes. Nessa perspectiva, os questionários e percepções subjetivas vêm se mostrando simples e eficazes para assessorar o fisiologista no tocante ao monitoramento de carga.

Um relógio, um papel, uma caneta e uma calculadora bastam. Tal método tem sido alvo de muita investigação na literatura científica e bons resultados vêm sendo encontrados.

Fisiologia aplicada ao futebol. Vilã ou mocinha?

A mídia muitas vezes atribui a falta de qualidade técnica de alguns jogadores ou equipes à fisiologia aplicada ao futebol, algo totalmente equivocado. Expressões como “o jogador não pode mais aperfeiçoar seu lançamento um ou sua batida na bola depois do treino porque o fisiologista não deixa” são comuns em programas esportivos.

Como já vimos, a função do fisiologista é acima de tudo, fornecer dados; as decisões são tomadas em conjunto. Ajustar os conteúdos de treino e/ou então abordar questões técnicas em outras partes do treino que não sejam “o complemento” são saídas interessantes.

Foto: (Polina Tankilevitch/Pexels)

Informação compartilhada

Um único marcador fisiológico, por mais que a informação coletada seja relevante, não nos fornece tudo. A chave está em integrar todos os dados disponíveis. É primordial expor os resultados para a comissão, considerar as necessidades, ouvir o atleta, e em cima disso tudo tomar decisões a respeito de participação ou não de atletas em jogos e treinos, aumento ou diminuição de carga de treino, alteração de métodos de treino, estratégias de recuperação entre partidas… Futebol sistêmico e cada vez mais em evolução: a fisiologia faz parte desse processo.


Não deixe de conferir nos links abaixo com nossos materiais sobre o treinamento físico no futebol. Tenho certeza que você irá aprender muito.

Contato do autor: @prof.amstalden – ra.junior@hotmail.com

Foto de capa: (Gustavo Aleixo/Cruzeiro Site Oficial)

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