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Como prevenir as lesões dos adutores em jogadores de futebol?

Por: Ricardo de Sá

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Ao longo dos últimos meses, aqui no Blog do Ciência da Bola, exibimos uma visão mais prática sobre a temática das lesões musculares no futebol. Assim, apresentamos nos textos até aqui produzidos, estudos científicos que mostram os principais exercícios utilizados na atualidade para prevenir e reabilitar lesões nos isquiotibiais e quadríceps. Dessa forma, seguiremos nessa proposta com estudos relacionados a exercícios preventivos no futebol para lesões dos músculos adutores.

Como mencionamos no texto anterior, não apontaremos uma resposta definitiva sobre o assunto, mas sim, fazê-los refletir e criar ainda mais questionamentos a respeito desse assunto. Então vamos ao texto!

Quais são os músculos adutores do quadril?

Os adutores do quadril (Figura 1 e 2) são um conjunto de músculos na região da coxa, formados pelo: pectíneo, grácil, adutor curto, adutor longo e adutor magno. É válido ressaltar que o adutor mínimo é parte do adutor magno, não sendo considerado o sexto músculo adutor do quadril.

Em jogadores de futebol, 35% das lesões na virilha ocorrem na musculatura dos adutores, sendo que 29% das lesões são de reincidência. Dentre os músculos dessa região, o músculo adutor longo foi considerado o que apresenta lesões com maior frequência. Isto é, 62% das lesões nesse grupo muscular ocorre, especificamente, nesse músculo.

Os adutores são muito estressados durante corridas de alta intensidade, intensas mudanças de direção com acelerações/desacelerações e, principalmente, durante os chutes. Lesões na virilha relacionadas aos adutores são o segundo tipo de lesão muscular mais comum no futebol. Além disso, também é a lesão mais comum na região do quadril / virilha, constituindo 63% de todas as lesões nesta região.

Figura 1. Músculos adutores da coxa em destaque, retirado do atlas de anatomia humana.
Figura 2. Músculos adutores da coxa em destaque, retirado do atlas de anatomia humana.

Como acontecem as lesões dos adutores?

As lesões nos adutores são causadas em razão do que chamamos de mecanismos estressores da região dos adutores do quadril. Conforme citado anteriormente, as corridas em alta intensidade, as mudanças de direção e os chutes são mecanismos estressores da região do quadril e, consequentemente, responsáveis pelas lesões.

Porém, existem outros fatores, por exemplo:

  • Relação de força menor a 90% entre adutores e abdutores;
  • ‘Deficit’ de força na região dos adutores, maior a 10% na comparação das extremidades inferiores, principalmente para jogadores em fase de reabilitação.
  • Redução da força de adução do quadril (força isométrica, excêntrica e isocinética);
  • Jogadores com um histórico lesivo nesse grupo muscular.

Desta maneira, até este ponto podemos perceber que um programa de prevenção de lesões deve incluir testes para verificar a relação de força de adução-abdução do quadril, e verificar os índices de força isométrica, concêntrica e excêntrica. Além disso, devemos incluir também exercícios para o fortalecimento dessa região, de modo a diminuir o estresse na unidade músculo-tendão adutora para evitar lesão por uso excessivo dessa musculatura.

Quais exercícios são indicados para prevenir/reabilitar lesões dos adutores?

Muitas vezes quando trabalhamos na readaptação de jogadores de futebol ou estamos montando um programa de trabalho preventivo de lesões em geral, nos perguntamos: qual é o melhor exercício que selecionaremos conforme a necessidade do atleta? Qual o mais indicado para alguém em fase inicial de recuperação? E em fase avançada? Ou para um programa preventivo com um jogador iniciante?

Portanto, para responder a essas e outras possíveis questões, apresentamos o estudo realizado pelo professor Serner da Universidade de Copenhagen. O estudo investigou a atividade muscular do adutor longo em oito exercícios de adução de quadril (6 tradicionais e 2 novos) (Figura 3); e analisou a ativação muscular de glúteos e abdominais.

Figura 3. Oito exercícios analisados no estudo proposto, adaptado de Serner (2013).

Resultados principais do estudo:

  1. O exercício isométrico com uma bola entre os joelhos (b) e o exercício Copenhagen (h) tiveram maior ativação na perna dominante para o músculo adutor longo, classificados como mais intensos;
  2. Por outro lado, a assimetria na ativação entre perna dominante (chute) e não dominante apresentada nos exercícios “c”, “e” e “h”, poderá ajudar na seleção de exercícios quando se desejar uma carga de treino diferenciada entre pernas;
  3. Por fim, os exercícios que apresentaram valores eletromiográficos similares para ativação do músculo adutor longo na perna dominante (chute) e não-dominante foram os exercícios “b”, “f” e “g”. Em suma, o exercício “b” apresentou uma similaridade alta (108 / 102), o exercício “f” apresentou uma similaridade intermediária (99 / 95) e o exercício “g” apresentou uma similaridade baixa (14 / 15). Dessa forma, interpretamos esses resultados e entendemos que quando não houver uma assimetria entre os membros inferiores e se tratar de um indivíduo iniciante ou que está passando por um trabalho de reabilitação, dependendo do estágio em que se encontre, poderemos utilizar esses três exercícios, realizando uma progressão.

Antes de continuar a leitura, não se esqueça de ouvir nosso podcast com o Preparador Físico Cyro Bueno.


O que aprendemos sobre lesões de adutores?

Em resumo até aqui, percebemos que diferentes exercícios possuem diferentes formas de ativação do músculo adutor longo; e diferentes formas de ativação entre a perna dominante (chute) e não-dominante. Essa informação tem relevância para o momento da escolha dos exercícios, levando em conta o momento em que se encontra o jogador e qual o objetivo a ser alcançado com o plano de treinamento. Porém, compreendendo que a variabilidade de exercícios possa ser a forma completa para prevenir e/ou reabilitar um jogador.

Assim, esse entendimento da variabilidade dos exercícios tem o apoio do estudo proposto pelo pesquisador Hölmich, o qual apontou uma redução no risco de lesão de 31%. Ainda sobre essa linha de raciocínio, o material de 2018 do Barça Guideline sugere que um programa de exercícios preventivos deve ser multidimensional. Ou seja, deve incluir não apenas exercícios direcionados ao músculo específico, como o caso do exercício Copenhagen (específico para adutores), mas também atividades específicas da modalidade e exercícios de condicionamento de desempenho.

Portanto, fica evidente que, assim como ocorre com a musculatura isquiotibial e na musculatura do quadríceps, não existe um padrão ouro de exercícios que evite totalmente o risco de lesões dos adutores. O caminho nesse caso é elaborar um plano de trabalho com variabilidade de exercícios, onde eles não sejam apenas específicos da musculatura em questão. Mas também com outros exercícios específicos da modalidade que ajudem na melhora da aptidão física geral e no fortalecimento de músculos secundários. Para assim evitar o aumento no risco de lesões dos adutores do quadril.

Para o próximo texto, se abordará a mesma temática, mas agora direcionada a musculatura da panturrilha. Então, se você gostou dos textos até aqui, não deixe de acompanhar as próximas publicações!

Fontes e Referências

Eccentric strengthening effect of hip-adductor training with elastic bands in soccer players: a randomised controlled trial.

Atlas de anatomia humana.

EMG evaluation of hip adduction exercises for soccer players: implications for exercise selection in prevention and treatment of groin injuries.


Contato do autor:
Instagram @pf_ricardosa
E-mail: ricardosa2506@gmail.com

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