É hora de voltar com o futebol?


Por Mauro Lúcio

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Com suas principais competições interrompidas desde meados de março, quando começaram a se tornar mais alarmantes as notificações de contágios e mortes em decorrência do novo coronavírus no Brasil, o futebol teve, ao longo das últimas semanas, seu protagonismo transferido para os acontecimentos de bastidores. Saíram de cena atletas e treinadores, que tiveram uma forçada antecipação de suas férias, e entraram no palco dirigentes, políticos e autoridades de saúde, com discursos nem sempre alinhados sobre os rumos a se tomar em relação à modalidade esportiva mais popular do país.

Convivendo com um suposto dilema entre proteger a saúde das pessoas ou ampliar sua exposição ao perigo, em prol da manutenção de atividades econômicas, personalidades do esporte têm se dividido ao se manifestarem sobre a situação. Nesse contexto, já nos momentos iniciais do imbróglio proporcionado pela pandemia, as divergências se tornaram visíveis.

No dia 16 de março de 2020, em reunião promovida pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ), Botafogo e Fluminense foram os únicos clubes inicialmente favoráveis à paralisação imediata do campeonato. Apesar de minoritária, essa decisão acabou prevalecendo, na medida em que a instituição estabeleceu que apenas haveria continuidade das competições em caso de decisão unânime dos clubes.

De maneira análoga, diversas outras entidades estaduais tomaram medidas nessa direção, como nos casos de Minas Gerais (15/03), São Paulo (16/03), Rio Grande do Sul (16/03) e Pernambuco (16/03). Entretanto, ainda que tenha havido um aparente consenso inicial, as indefinições e discordâncias não deixaram de existir.

Interrupção do futebol

Logo nos primeiros momentos de interrupção, os clubes começaram a se movimentar internamente, tentando encontrar soluções para as perdas de receitas. As reduções de salários começaram a ser pensadas e adotadas em diferentes proporções por cada equipe, ao passo que as férias para atletas e comissão técnica foram adotadas de forma quase que simultânea pelos clubes das primeiras divisões do país. Para tanto, fundamentais foram as negociações para acomodar os diferentes interesses envolvidos nos processos.

Findado o primeiro mês de afastamento, a segunda quinzena de abril foi colocando os profissionais do esporte mais uma vez à disposição de seus clubes, fazendo com que as conversas sobre a volta às atividades começassem a se intensificar. Nesse contexto, conforme veiculado por diferentes meios de comunicação, o presidente da república mencionou, no dia 27 de abril, estar conversando com pessoas do futebol a respeito do retorno dessas atividades esportivas. Dentre os interlocutores, estaria o treinador Renato Gaúcho que, apesar de seu alinhamento com o político, teria se manifestado contra a volta.


Gre-Nal se uniu por paralisação do Campeonato Gaúcho; veja quem ...
Imagem: Maxi Franzoi/AGIF – Fonte: UOL

Quem autoriza o retorno do futebol?

De maneira oposta a esse posicionamento, no entanto, o Ministério da Saúde emitiu um parecer favorável ao retorno das atividades dos clubes. Divulgada no dia 01 de maio, essa nota veio como resposta a uma consulta da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), tendo aberto espaço para manifestações de dirigentes desportivos e gerado repercussão entre jogadores, comentaristas, políticos e torcedores.

Mais importante do que rememorar esses posicionamentos, que se encontram disponíveis em variados portais de notícias esportivas, acredito que seja a construção de ponderações sobre a pertinência de um retorno imediato do futebol. Em um momento em que a pandemia tem intensificado seus níveis de contágio e letalidade no Brasil, parece um contrassenso pensar que essa questão vem, não apenas entrando em pauta, como também sendo efetivada em nosso país (haja vista a volta aos treinamentos de jogadores de Grêmio e Internacional nesta data – 05/05/2020[1]).


Propalado por muitos dirigentes, comentaristas e torcedores como um esporte que não se restringe à disputa de 22 jogadores correndo atrás de uma bola, o futebol recebe, nesse caso, um tratamento que é o exato oposto da assertiva mencionada. Quando pessoas se dispõem a reestabelecer uma normalidade de treinamentos e competições no momento em que o país enfrenta um quadro dramático provocado por uma pandemia, o que se faz é pensar esse esporte como algo desvinculado da sociedade, das dores e dos problemas da população.

Como a pandemia afeta o futebol

De modo adicional, ao se colocar na linha de frente pelo retorno das atividades comuns da vida, o futebol dá sua contribuição para que haja um afrouxamento ainda maior do distanciamento social que é, até então, a medida mais eficaz de controle dessa doença. Sem vacinas ou remédios eficazes, reduzir a circulação de pessoas a fim de diminuir a propagação do contágio, é a medida mais sensata para salvar vidas, sejam elas envolvidas ou não com o esporte.

Como tem sido mostrado dia após dia, a doença provocada pelo novo coronavírus não tem sua gravidade ou letalidade restrita aos grupos de risco. Homens e mulheres jovens, sem comorbidades e praticantes de exercício físico, também podem desenvolver as formas mais graves da infecção viral. Prova disso é que, a morte de atletas e ex-atletas é uma realidade que tem sido enfrentada em diversas partes do mundo[2].


Coronavírus: ex-jogador de futsal de Flamengo, Botafogo e Vasco ...
(Morre Leco, ex-jogador de Futsal do Flamengo, vítima do COVID-19) Foto: Reprodução/Twitter – Fonte: Globoesporte

Ao pensar na logística envolvida em uma sessão de treinamento, por sua vez, torna-se ainda mais difícil defender a pertinência do retorno às atividades. As máscaras de proteção, apesar de equipamentos de segurança essenciais, não têm uma eficácia definitiva contra o contágio. Os testes constantes dos jogadores, além de fazerem com que se direcione grandes quantidades desses itens para pessoas que, em um cenário de escassez, não precisariam utilizá-los, podem atestar falsos negativos e fazer com que se facilite uma cadeia de transmissão, por parte de indivíduos assintomáticos. No caso dos clubes pequenos, a situação é ainda mais grave, visto que provavelmente não haverá dinheiro para seguir à risca essas precauções.

Tendo isso em vista, em um momento em que a recessão econômica é um fato consumado no país, não é sensato pensar que uma volta precoce do futebol será capaz de restituir os clubes de prejuízos ocasionados pela pandemia. Sem possibilidades de abrir os estádios, a perda de receitas com venda de ingressos e programas de sócio torcedor é algo que não será resolvido no curto prazo. Os patrocínios e cotas de televisão, assim como o pagamento e financiamento das dívidas, devem ser analisados cuidadosamente por profissionais qualificados, capazes de levar uma posição unificada dos clubes junto às empresas e ao poder público.

Nesse sentido, antes de traçar estratégias para uma retomada em um momento de agravamento da crise de saúde, seria mais pertinente a reunião dos dirigentes em busca de desenvolver uma análise ampliada da situação, capaz de entender não apenas a realidade do país, mas a importância do futebol responder de forma coerente à situação. No cenário seguro de retorno às atividades de vida diária, novos conceitos deverão ser traçados, também, para a vivência do futebol. Que estejamos todos seguros e preparados para essa tarefa.


Mauro Lúcio Maciel Júnior – Bacharel em Educação Física pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre e doutorando em Estudos do Lazer, pela mesma instituição. Professor substituto na Universidade Federal de Juiz de Fora, Campus Avançado de Governador Valadares (UFJF-GV).
Contato: maurolmj9@hotmail.com

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