A arte de ensinar Futebol: uma visão pedagógica


Por João Vítor

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Para explicitar a importância da relação da pedagogia com o futebol, é interessante tratar da “brasilidade” desse esporte. Segundo Iglesias (2010), o que comprova essa relação do povo brasileiro com o esporte são as páginas e páginas de jornal, horas e horas das programações de TV e rádios dedicadas às notícias e às análises sobre o tema. Com isso, utilizar o futebol como instrumento de ensino, torna-se uma tarefa muito satisfatória para o professor devido ao futebol ser vivenciado diariamente em nosso país.

Segundo Freire (2003) o futebol ensinado na escola regular ou na escola específica, deve contribuir para que a pessoa que aprende usufrua dele na sua vida cotidiana. No ambiente escolar, a pedagogia do esporte se volta não para a formação de atletas de performance, mas para que o futebol seja vivenciado e trabalhado de forma que todos possam ter acesso às habilidades e gestos motores, de acordo com o seu desenvolvimento biológico, psicológico e social.

Para Silva (2008), o futebol assim como o futsal trabalhado na escola deve ter uma formação básica, desenvolvendo as habilidades físico-mentais: consciência corporal, coordenação, flexibilidade, ritmo, agilidade, equilíbrio, percepção espaço-temporal em uma atmosfera de descontração, dinamismo e ludicidade.

A escola da rua

Freire (2003) defende que a rua é também um lugar onde a criança inicia suas práticas futebolísticas, constituindo-se num ambiente de aprendizagem, embora apresente conflitos em excesso. Por isso nunca deve ser comparada com o ensino de futebol nas escolas e nas escolinhas. Mas também seus jogos e brincadeiras não podem ser negados, pois representam situações de extrema significância pedagógica.

O ensinar no futebol, não é uma simples transmissão de conhecimento ou imitações de gestos, onde o aluno seja apenas um receptor passivo, acrítico, inocente e indefeso de seus fundamentos técnicos. Ensinar futebol é uma prática pedagógica, desenvolvida dentro de um processo de ensino-aprendizagem, que leve em conta o sujeito aluno, criando possibilidades para construir esse conhecimento, inserindo e fazendo interagir o que o aluno já sabe, com o novo, ampliando-se assim, sua bagagem cultural e motora (SCAGLIA 1999).

Como ensinar futebol?

Segundo Scaglia, sendo o futebol produto da cultura humana, ele é fruto da humanitude, portanto é passível de ser ensinado. Nesse ponto, Freire (2003) diz que no aprendizado do futebol assim como de qualquer outro esporte é necessário o desenvolvimento de habilidades motoras. Mas controlar uma bola na medida exata e estabelecer, através dela, relações com os outros, podem expressar atitudes de solidariedade, rivalidade, amor e ódio.

Essas habilidades são capacidades próprias do organismo para dar base às ações humanas, como a resistência, capacidade de manter um trabalho durante algum tempo com eficiência; a velocidade de movimentação e a agilidade, responsável pelo deslocamento rápido por diversas direções em menor tempo, e a flexibilidade; que é a capacidade de executar movimentos amplos. Essas são habilidades inespecíficas para o futebol, pois em geral correspondem às habilidades gerais para a prática de qualquer esporte, sendo essenciais para o bom desempenho.

Ainda segundo Freire (2003), as habilidades gerais bem como as habilidades específicas do futebol necessitam de uma coordenação combinada entre elas, para que a execução possa resultar em sucesso. São habilidades aplicadas ao futebol: a Finalização, Passe, Controle de Bola, Condução, Desarme, Lançamento, Cruzamento, Cabeceio e no caso dos goleiros, Defesa e Saltos.

Scaglia (2003) classifica os fundamentos do futebol em Básicos: passe, domínio de bola, condução, drible, chute, desarme e cabeceio. Fundamentos Derivados: cruzamento, cobrança de falta e pênalti, lançamentos e tabelinhas. E os fundamentos Específicos que são as posições assumidas pelo jogador durante o jogo, como goleiro, zagueiros, laterais, meias e atacantes.

Na aprendizagem do futebol, seja na escola ou em escolinhas a criança deve aprender primeiro as habilidades voltadas para si mesmo, ou seja, em que somente ele mantém o contato com a bola, como a condução, controle, finalização e cabeceio. Em seguida após esse processo, ele deve conhecer as habilidades exercidas com o outro, como o passe, drible e desarme, pois envolve outro indivíduo para que a habilidade seja executada. Por último, serão desenvolvidas as habilidades de atuação num jogo como um todo, incluindo todas as habilidades anteriores, mas tendo a capacidade de jogar sem bola, mentalmente, criando hipóteses e planos mentais para serem aplicados na prática (FREIRE 2003).

Qual papel das escolinhas?

O futebol assim pode ser visto como educacional e de lazer com a sua prática e o ensino sistematizados dentro do ambiente escolar. Enquanto que o futebol de rendimento não deve estar inserido dentro desse processo. As escolinhas de futebol muitas vezes são as opções encontradas para que o aluno possa se especificar tecnicamente nas habilidades do futebol com o objetivo de no futuro se tornar um atleta profissional. Mas mesmo assim essas escolinhas devem ter um planejamento de pedagogia do futebol que possibilite alcançar esses resultados, sem que possa interferir no desenvolvimento intelectual e motor da criança. Assim, o futebol não pode ser reproduzido sem que o educando possa compreender o verdadeiro sentido daquele esporte, se é de rendimento, educacional ou apenas uma atividade de lazer.

Portanto, mais importante que revelarmos recordistas infantis é necessário criarmos condições para que todos os alunos desenvolvam uma cultura esportiva, pois, inserido nesse processo, nada impede o craque de se desenvolver e os outros de se beneficiarem dos proveitos que o futebol traz.

Texto retirado do trabalho: A pedagogia esportiva e o ensino do futebol na escola


REFERÊNCIAS

IGLESIAS, Marcelo. Futebol e educação: como podemos utilizar a modalidade para o ensino? O Brasil, apesar de ser o país com maior destaque no futebol, usa pouco o esporte para auxiliar na educação de crianças e jovens. Dezembro, 2010. Disponível em: <http://www.universidadedofutebol.com.br/ConteudoCapacitacao/Artigos/Detalhe.aspx?id=2041&p=>. Acesso em: 28 nov. 2011.

FREIRE, J. B. Pedagogia do futebol. Campinas: Autores Associados, 2003.

SCAGLIA,  A.J. O futebol e o jogo/brincadeira de bola com os pés: todos semelhantes, todos diferentes, 2003. 164f. Tese (Doutorado)- Faculdade de Educação Física, Unicamp, Campinas, 2003.

______________. O futebol que se aprende e o futebol que se ensina. 1999. 169f. Dissertação ( Mestrado)- Faculdade de Educação Física- Unicamp, Campinas, 1999.

SILVA, Nilton A. O futsal na área escolar. Janeiro, 2008. Disponível em: <http://www.webartigos.com/articles/3828/1/O-Futsal-na-Area-Escolar/pagina1.html> Acesso em: 22 abr. 2011.


Texto produzido por João Vítor de Assis
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